Contos,crônicas e pensamentos.

A síntese do assalariado

Estava ontem lendo uns escritos de meu pai e me deparo com esse texto, tão antigo e tão contemporâneo, e infelizmente pouca coisa mudou desde então.



Pés descalços, barba por fazer, mochila nas costas, dentro vai sua marmita. Todos os dias às 5:30 hs  em ponto ele vai pela estrada empoeirada, trepado em cima de seu camelo, camelo esse, adquirido pelo herói assalariado antes mesmo de se casar, quando ainda vivia com seus pais e quem pagava o macarrão era o velho.

            Ele deixa atrás de si uma saudade da cama quente que é obrigado a abandonar todos os dias, seja chuva, ou seja, sol, fazendo dessa rotina seu viver.

            Hoje, porém, vejo em seus olhos um brilho diferente, ele está mais contente, é o décimo dia do mês. À tarde, quando estiver deixando o trabalho, passará pelo escritório, olhará com certo afeto a tesoureira, sorrirá com seus dentes cariados, afinal, assalariados não tem dinheiro para o tratamento dentário, mesmo o INPS dando total assistência (se conseguir uma vaga), ele então pegará aquele envelope tão desejado, o assinará, fará uma pausa e finalmente o abrirá, contando todos os batalhados CZ$ 735,66 cruzados, para ser mais exato. É claro, não se esquecendo de descontar o INPS.

            Aquele trabalhador ainda não teve condições de cuidar de seus dentes, de cuidar da verminose de sua meia dúzia de filhos, que são sustentados com toda sua fortuna. Podem pensar que é exagerada a quantidade de filhos mas é que o dinheiro ainda não havia sobrado para comprar aquela televisão tão sonhada pela patroa, a tv que iria variar a programação das noites exaustas da pobre coitada, depois de lavar as trouxas de roupas das madames, mandar o filho mais velho, que já deve ter seus 8 anos, para a escola, que vai de pé no chão e o uniforme surrado de segunda mão  que foi doado pela vizinha após 3 anos de uso. O que sobra para a pobre patroa é cuidar do jantar, ou melhor, da sopa de macarrão mal temperada de todos os dias, pois o arroz só é servido aos domingos ou quando aparece visita, que de vez em quando surge para dar um pouco de alegria à criançada, fazendo variar o prato. A carne, os pobres só veem em sonhos, quando chega o décimo terceiro salário, quando não está ninguém no perrengue, é claro.

            Voltando ao heroico e bravo pai de família, que como diziam seus patrões, já pegou sua remuneração mensal. Aqueles grandiosos empresários, que veem no assalariado um prato gordo de sopa, sem macarrão é claro, pois a sopa eles deixam aos seus súditos, como o vampiro vê na efêmera jovem, toda sadia, o seu pescocinho predileto para sugar-lhe até a última gota de sangue, e voltar, noites e mais noites, sempre querendo mais, conosco, doadores à salário mínimo, além do sangue, sugam-nos a inteligência, a vontade de vencer e ainda nos menosprezam tratando-nos de peões. Vai ele pensando no que fazer, e como, com tamanha migalha. Chega ao armazém e pede ao vendeiro que some sua conta, pega o que tem no bolso e vê que só dá para mais ou menos 70%, pois teve de pagar a farmácia e ainda teve descontado um dia em seu pagamento para o tal do imposto sindical. Que coisa! Será que não chega? Implora ao vendeiro que ele lhe fie por mais trinta dias, pois a patroa receberá o dinheiro da lavagem e pagara o restante. Mesmo assim seu credor não aceita, diz que também tem seus compromissos e já lhe vendeu de mais. O coitado todo insatisfeito, num tremendo caos, pensa no que fazer como conseguir levar para casa os gêneros necessários para o sustento da prole? A ponto de desistir da vida, chega em casa e conta a mulher o ocorrido, mas como todo homem que se preze, trás junto de si uma esposa confiante que o transmite todo o apoio necessário.

            O pobre volta à luta e por fim encontra alguém um tanto comovido com sua história que lhe supre por mais um mês. Isso é o que frequentemente ocorrerá nos meses seguintes, por anos e mais anos, enquanto se criem os filhos de forma carente.

            Não contando com a possibilidade de ficar desempregado, é o que acaba acontecendo, ele conta com o fundo de garantia e o auxílio desemprego, criado pelo Homem. O primeiro paga as contas atrasadas, agora esperando pelo segundo que lhe trará 60% de um salário mínimo, esse dinheiro abençoado que levou somente quatro meses para começar a cair toda essa grana. E o que fazer nesse tempo? Ele trabalhará por aí afora, apanhando café, quebrando pedra, vendendo picolé e laranja, isso é quando se tem sorte, e a patroa em casa sempre quebrando galho com a lavagem, coitada, sempre ela. Assim se passarão três meses e quinze dias e nosso herói já estará empregado, mesmo antes de receber o tão esperado auxílio desemprego. Isso ocorrerá novamente durante sua brilhante carreira de operário assalariado dez a quinze vezes, até que se chegue o tempo da aposentadoria, não por tempo de serviço, mas por idade, caso ele não morra aos 64 anos, 11 meses e 29 dias, pois geralmente a aposentadoria aqui é para defuntos. Daí seu filho mais velho, aquele que ia à escola aos 8 anos, já estará preparado com todos os documentos necessários para também ingressar na carreira do pai, passará da mesma forma por todas as alegrias traumáticas da família, exibindo de forma triunfal sua marmita, símbolo dessa classe, que vive aos trancos e barrancos por esse Brasil a fora.

            Até que tomem a iniciativa de organizarem-se a fim de melhores dias, nada mudará, pois, não adianta esperar de políticos, padres, pastores e demais autoridades, pois estes que podem, não querem perder sua maior fonte de sangue, pois, como fariam para se nutrir se a vítima se tornar também um vampiro?

 

Luiz Gerardel

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